22 de jun de 2013

[Conto] GEIR CAMPOS – A conversa



   
-  PEDRO LUSO DE CARVALHO 


GEIR CAMPOS – Geir Nuffer Campos – nasceu a 28 de fevereiro de 1924, em São José do Calçado, ES, e morreu a 8 de maio de 1999, em Niterói, RJ.  Foi poeta, escritor, tradutor, jornalista e professor universitário da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, casado com Alcinda Lima Souto, que passou a chamar-se Alcinda Campos, pai de dois filhos: Carlos Augusto Campos e Mauro Campos.

Poeta, estreou em 1950, com Rosa dos Rumos, após ter publicado em jornais e revistas, especialmente no Diário Carioca, vários poemas, contos e traduções. Editor, fundou em 1951, com Thiago de Mello, as Edições Hipocampo, que chegaram a publicar vinte volumes de poesia e prosa, dos autores mais representativos da literatura brasileira e também de alguns estreantes como Paulo Mendes Campos e outros; nessa coleção apareceu, em janeiro de 1952, Arquipélago, o seu segundo livro de versos.

Tradutor, começou a publicar em 1953, com uma coletânea de Poemas de Rainer Maria Rilke. Contista, lançou em 1960 a primeira edição de O Vestíbulo. Radialista, em agosto de 1954 começou a produzir e apresentar, na Rádio Ministério de Educação, um programa semanal de meia hora, "Poesia Viva"; para essa mesma emissora produziu, durante muitos anos, diversos programas literários. Jornalista, colaborou e assinou colunas em diversos Jornais, entre eles o Diário de Notícias e o Diário Carioca.

É o autor da letra do hino de Brasília, cuja música é de autoria da professora Neusa Pinho França Almeida. Foi membro fundador do Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro e da Associação Brasileira de Tradutores, da qual foi presidente, lutando pela conscientização dos que traduzem profissionalmente no Brasil e pela regulamentação desta profissão.

Traduziu várias obras de Rilke, Brecht, Goethe, Shakespeare, Sófocles, Whitman e outros, sendo merecedor de um ensaio da professora Maria Thereza Coelho Ceotto da Universidade Federal do Espírito Santo. Destacou-se enquanto ativista cultural de grande influência e presença na literatura brasileira, tornando-se o grande representante capixaba da "Geração de 45". Prefácio (com Fernando Jorge) a Poemas e Cartas a um Jovem Poeta, de Rilke. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d.

Segue o conto de Geir Campos, intitulado A conversa (in Contos e vírgula: contos / Campos, Geir. Rio de Janeiro – Record, 1982, p. 78-82):


                                                [ESPAÇO DO CONTO]


                                                      A CONVERSA
                                                                                                               ( Geir Campos )



Tilintar de talheres e de pratos, copos, terrinas. Vozes não: como se nada houvesse digno de ser dito. Espécie de silêncio musical, cristal tocado de minissons insignificativos. Olhares vão da mesa aos vãos da porta e da janela. Diminui aos poucos o ralo vapor que sobe dos pratos, das terrinas, com os cheiros de cada comida por comer. Espécie de silêncio mastigado. Macarrão não cortado pelos dentes, alguns postiços. Chega do céu o ronco de um avião: cada vez mais perto, cada vez mais longe, passou. Espécie de silêncio postiço. De repente:

– E ela?

– Quem?

– Engraçadinho!

– Ora, quem poderia ser?

Tilintar de talheres e pratos, copos, terrinas. Espécie de silêncio, clivado de minissons aparentemente sem sentido. Chega de fora um ruflar de asas: galinhas pousando em cima do muro. Espécie de silêncio murado.

De repente:

– E então?

– O quê?

– Não sei falar?

– O quê?

– Não tenha medo...

– De quê?

– De que poderia ser?

Tilintar de talheres e de pratos, copos terrinas. Reintegra-se o silêncio, embaralhando minissons insignificantes. Chegam de fora vozes de crianças no retorno da escola. Sem ousar entrar, a alegria das crianças repica nos vazios das janelas feito uma bola. Espécie de silêncio embolado. Perdem-se ao longe as vozes das crianças. Dentro:

– Não precisa ficar assim!

– Assim como?

– Assim tão...

– Como?

– Como poderia ser?

Tilintar de talheres e de pratos, copos, terrinas. Chega na cozinha a empregada: colhe talheres, copos, pratos, terrinas; deixa colherinhas, pratinhos, xicrinhas. Deixa o silenciozinho, sobremesário. Da cozinha o anúncio da água na pia, a cair da torneira e a grugulhar no ralo. Espécie de silêncio lavado. Mais:

– Pensa que eu não vi?

– O quê?

– Você bem sabe!

– De quê?

– Eu estava lá!

– Onde?

– Onde poderia ser?

Tilintar de colherinhas e xicrinhas. Café quente assoprado nas beiras da louça. Olhares entornados das beiras dos olhos. Espécie de silêncio entornado. Chega do portão a voz do carteiro, chega também a voz da empregada. Chegaram cartas, que a empregada vem trazer. Cartas na mesa:

– Não vai abrir?

– Hum?

– A cartinha...

– Hum...

– É de mulher?

– Hum?

– A letrinha diz tudo.

– Hum?

Chega da escola o menino. Sorrisos abrem-se. Festeja-se a trégua. Silêncio em pé de guerra. O menino sai, saltitante inocência. Guerra de novo em pé:

– Sonso!

– Quem?

– Ora, quem...

– O menino?

– O menino, hein?

Uma espécie de colcha de silêncio esperando na cama, um lençol de silêncio. Enchendo o cômodo, um silêncio incômodo. Do seu canto invisível, o poeta Rilke lembra:

Quando os casais, a raiva sufocando,
têm que dormir na mesma cama... É quando
a solidão com os rios vai passando.

– Não vai escovar os dentes?

Dentes apertados, os de cima contra os de baixo. Ruminadas vontades difíceis de dizer. Espécie de silêncio escovado. Vontades contra vontades:

– Apague as luz!

Vontade de acender todas as luzes. Urgência de uma grande claridade: no tempo, no lugar. Lugar difícil na cama de dois. Luz apagada. Vontade apagada. Corpo doído entre o colchão e a colcha. Toque de cotovelos, de joelhos. Pedidos de joelhos. Entre o colchão e a colcha. Entre a colcha e a coxa. Entre coxa e coxa:

– A hora é de dormir.

– Já?

– Já.

– Então vamos dormir.

– Mas antes precisamos conversar...

– Conversar o quê?

– O que poderia ser?

Toques de mãos, antebraços, braços. Toques de pés, pernas, coxas. Veias pulsando em silêncio. Pulsões:

– Mais para lá!

– Para onde?

– Mais para cá!

– Assim?


– Assim.

– Mais?

– Está bom.

– Está bom para você?

– E para você?

Cadência. Madeirame da cama rangendo. Chega do quarto ao lado a tosse do menino:

– Será que está acordado?

– Numa hora destas?

No quarto ao lado o ressonar do menino, fundo no sono. Movimentos pausados. Silêncio pontilhado de cautelas. Vaivém acelerado: o salto, o voo, o pouso. No escuro a calma:

– Que bom que a gente se entende!

– É conversando que a gente se entende.




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REFERÊNCIAS:
CAMPOS, Geir. Conto e vírgula. Rio de Janeiro: Record, 1982, p. 78-82.
<http://pt.wikipedia.org/wiki/GeirCampos> Acesso em: 21.06.2013.  



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