28 de fev de 2011

TCHEKHOV / Gorki e "A dama do cachorrinho"

Anton Tchekhov





             por  Pedro Luso de Carvalho



        Anton Tchekhov escreveu o conto A dama do cachorrinho, uma de suas obras-primas, no final de 1899, quando se encontrava em Ialta, época em que sua saúde estava seriamente abalada. Maximo Gorki, amigo de Tchekhov, escreveu-lhe, após ter lido esse conto: “Li sua Dama. Sabe você o que está fazendo? Está matando o realismo. E acabará de matá-lo. Em breve há de liquidá-lo por muito tempo. Essa forma já viveu o que tinha de viver – é um fato! Ninguém pode ir mais longe que você por esta senda, ninguém pode escrever com tamanha simplicidade sobre coisas tão simples, como você sabe. Depois do mais insignificante de seus contos, tudo o mais parece grosseiro e escrito não com a pena, mas com um pedaço de pau. E, principalmente, tudo parece não simples, isto é, inverídico. É verdade (...) E quanto ao realismo, você vai exterminá-lo mesmo. Estou contente ao extremo. Chega! Diabo que o carregue!”

        Gorki prossegue com sua carta para o amigo Tchekhov: “Com efeito, chegou o tempo de se necessitar de algo heróico: todos desejam algo excitante, colorido, que não seja parecido com a vida, mas sim mais elevado que ela, melhor, mais belo. É absolutamente indispensável que a literatura atual comece a enfeitar um pouco a vida e, logo que ela o comece, a vida se embelezará, isto é, os homens viverão de modo mais veloz e vibrante. E, agora, veja que olhos ordinários eles têm: enfastiados, turvos, congelados”.

        Sobre essa almejada transformação da literatura, realizada por Tchekhov, continua Gorki: “Você realiza uma obra colossal, com seus pequenos contos, despertando nas pessoas uma repulsa por esta vida sonolenta, meio morta – diabo que a carregue! A sua dama causou-me tamanha impressão que, apenas a conheci, quis trair minha mulher, sofrer, brigar etc. Mas não traí a mulher, pois não havia com quem, apenas briguei com ela decididamente e fiz o mesmo com o marido da irmã dela, meu amigo do peito. Vai ver que você não esperava tamanho resultado? Mas não estou brincando: aconteceu isso mesmo. E não é comigo apenas que acontecem coisas assim, não ria. Seus contos são frascos elegantemente facetados, contendo todos os perfumes da vida, creia-me! Um olfato sensível sempre encontrará neles o perfume fino, penetrante e sadio do “real” verdadeiramente necessário e precioso que sempre existe em cada um de seus frascos. Bem, vou parar, senão vai pensar que estou lhe fazendo cumprimentos”..
Tchekhov e Gorki

     Ainda, sobre a repercussão do conto de Tchekhov, A dama do cachorrinho, agora com a manifestação de Tolstoi, como foi anotado no seu diário, em 16 de janeiro de 1900: “Li A dama do cachorrinho, de Tchekhov. Sempre Nietzche. Pessoas que não elaboraram em si uma clara visão do mundo, que separe o bem e o mal. Antes se intimidavam, ficavam à procura, mas agora, acreditando encontrar-se além do bem e do mal, permanecem aquém, isto é, quase uns animais”.

     T.L. Chechépkina-Kupérnik afirma, em suas reminiscências: “Seus pequenos contos valem as obras em muitos volumes de outros. Tome-se, por exemplo, A dama do cachorrinho: Turgueniev teria aí tema para um romance inteiro. Tchekhov acomodou-o em algumas dezenas de páginas, mas nessas páginas se vê e se sente não só o drama pessoal de duas ou três pessoas, mas todo o quotidiano da ‘intelienguêntzia’ de então, que se sufocava sob os pesos dos preconceitos, das noções falsas sobre decência etc, que muitas vezes destruíam a vida e o íntimo das pessoas”.

        Em A dama do cachorrinho, Tchekhov criou o personagem Gurov, homem casado, que, na estação de veraneio de Ialta, conheceu a dama do cachorrinho, Ana Sierguieivna, mulher também casada, que, uma semana após o primeiro encontro, levou-o ao seu quarto. O que se passa na mente de Ana e Gurov, nesse primeiro encontro, é contado com sutileza e maestria por Tchekhov. Passado algum tempo, Ana regressa para sua casa, numa província perto de Moscou, e Gurov regressa a Moscou e reassume o seu trabalho no banco. Gurov não conseguindo esquecer Ana, procurou-a mais tarde em sua casa; com medo de ser descoberta pelo marido, prometeu encontra-se com ele em Moscou. A partir daí passaram a encontrar-se a cada dois ou três meses; os amantes convencem-se de que foram feitos um para o outro; mas não há uma solução definitiva para o caso; Tchekhov deixa o desfecho por conta do leitor.

        Essa falta de conclusão no conto A dama do cachorrinho espantou os críticos de Tchekhov, como V. Burênin, que escreveu no Nórvíe Vrênia, em 25 de janeiro de 1900: “O final nas obras deste literato de talento surge no ponto em que, segundo parece, deveríamos esperar o verdadeiro trabalho do criador”. Além do caráter fragmentário do conto, outros críticos fizeram restrições ao conto sob o aspecto moral. Hoje, evidentemente, tais críticas não seriam feitas por críticos sérios, quer quanto à forma, quer quanto ao seu conteúdo.

        A dama e o cachorrinho e outros contos, obra publicada no Brasil pela editora 34, em 1999, com a tradução do conceituado Boris Schnaiderman, que também foi o responsável por um excelente Posfácio, do qual extraí os trechos que se relacionam com Tchekhov e Gorki, além de Tolstoi, T.L. Chechépkina-Kupérnik e V. Burênin. As publicações anteriores foram feitas em 1959 pela Civilização Brasileira, e pela Max Limonad, em 1985 e 1986. (Ver: Anton Tchekhov / Sua narrativa.)



REFERÊNCIAS:
TCHEKHOV, Anton Pavlovitch. A dama do cachorrinho e Outros Contos. Trad. de Boris Schnaiderman. São Paulo: Editora 34, 1999.
MASON, Jayme. Mestres da Literatura Russa. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 1995.
LAFFITTE, Sophie. Tchekhov. Tradução de Hélio Pólvora. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1993.